

Lygia Bojunga
A Bolsa Amarela já se tornou um 'clássico' da literatura infanto juvenil.
É o romance de uma menina que entra em conflito consigo mesma e com a família ao reprimir três grandes vontades (que ela esconde numa bolsa amarela)- a vontade de crescer, a de ser garoto e a de se tornar escritora.
A partir dessa revelação- por si mesma uma contestação à estrutura familiar tradicional em cujo meio 'criança não tem vontade'- essa menina sensível e imaginativa nos conta o seu dia-a-dia, juntando o mundo real da família ao mundo criado por sua imaginação fértil e povoado de amigos secretos e fantasias.
O texto abaixo é um pedaço do livro “A bolsa amarela” de Lygia Bojunga
A bolsa amarela
Era amarela. Achei isso genial: pra mim o amarelo é a cor mais bonita que existe. Mas não era um amarelo sempre igual: ás vezes era forte, mas depois ficava fraco: não sei se porque ele já tinha desbotado um pouco ou porque já nasceu assim mesmo, resolvendo que ser sempre igual é muito chato.
Ela era grande: tinha até mais tamanho de sacola do que de bolsa. Mas vai ver ela era que nem eu: achava que ser pequena não dá pé.
A bolsa não era sozinha: tinha uma alça também. Foi só pendurar a alça no ombro que a bolsa arrastou no chão. Resolveu o problema. E ficou com mais bossa também.
Não sei o nome da fazenda que fez a bolsa amarela. Mas era uma fazenda grossa, e se a gente passava a mão arranhava um pouco. Olhei bem de perto e vi os fios da fazenda passando um por cima do outro: mas direitinho; sem fazer bagunça nem nada. Achei legal. Mas o que eu achei mais legal foi ver que a fazenda esticava: “vai dar pra guardar um bocado de coisa aí dentro”.
A bolsa por dentro
Abri devagarinho. Com medo danado de ser tudo vazio. Espiei. Nem acreditei. Espiei melhor.
_ Mas que curtição! _ berrei. E ainda bem que só berrei pensando: ninguém encostou nem olhou.
A bolsa tinha sete filhos! Eu sempre achei que bolso de bolsa é filho de bolsa. E os sete moravam assim:
Em cima, um grandão de cada lado, os dois com zíper: abri-fechei, abri-fechei, abri-fechei, os dois funcionando que só vendo. Logo embaixo tinha mais dois bolsos menores que fechavam com botão. Num dos lados tinha um outro – tão amargo e tão comprido que fiquei pensando o que é que podia guardar ali dentro (um guarda – chuva? Um martelo? Um cabide de pé?). No outro lado tinha um bolso pequeno, feito de fazenda franzidinha, que esticou todo quando eu botei a mão dentro dele: botei duas mãos: esticou ainda mais: era um bolso com mania de sanfona. Como eu ia dar coisa pra ele guardar! E por último tinha um pequenininho, que eu logo achei que era o bebê da bolsa.
Comecei a pensar em todo que eu ia esconder na bolsa amarela. Puxa vida, tava até parecendo o quintal da minha casa, com tanto esconderijo bom, que fecha, que estica, que é pequeno, que é grande. E tinha uma vantagem: a bolsa eu podia sempre levar a tiracolo, o quintal não. Continua: AQUI
"A Bolsa Amarela", clássico da literatura infantojuvenil brasileira escrito por Lygia Bojunga, conta a história de Raquel, uma menina que esconde três grandes vontades dentro de uma bolsa: crescer, ser menino e se tornar escritora
O livro acompanha o amadurecimento da protagonista enquanto ela lida com a incompreensão da família e com a opressão do mundo adulto.
Os Três Desejos :
Por ser a caçula, Raquel sofria com a falta de atenção e de voz na família. Para lidar com suas frustrações, ela guarda seus maiores segredos em uma bolsa amarela:
- A vontade de crescer: O desejo de deixar de ser tratada como criança e ter autonomia.
- A vontade de ser garoto: Uma contestação ao machismo da época, pois ela percebia que os meninos tinham mais liberdade e privilégios na sociedade e na dinâmica familiar.
- A vontade de ser escritora: A necessidade de inventar histórias e expressar seu próprio mundo interior através da escrita.
- O machismo e a desigualdade de gênero.
- A necessidade de escutar e validar as emoções infantis.
- Autonomia, identidade e a busca por espaço no mundo.
Realismo Mágico e Amadurecimento
Para lidar com a solidão, Raquel usa a imaginação e dá vida aos objetos e sentimentos que carrega na bolsa. Ela interage com personagens imaginários e cria companheiros (como um galo que não queria brigar e um guarda-chuva). A bolsa funciona como um refúgio seguro onde ela pode ser ela mesma sem julgamentos.
No decorrer da narrativa, a bolsa fica tão cheia de desejos reprimidos que acaba estourando. Isso a obriga a enfrentar seus sentimentos e o mundo real. No final, Raquel consegue elaborar seus conflitos, descobre que ser menina é tão bom quanto ser garoto e percebe que é possível encontrar a sua própria liberdade.
Temas Abordados: Ouçam AQUI Talyta Borges comentando a censura solicitada por pais conservadores, que não conhecem a obra toda e dão seus palpites inadequados.
Ouvindo: AQUI
Minhas vontades: AQUI
Ouçam esta apreciação do livro: AQUI
Teatro de mesa: AQUI
Trecho quando Raquel encontra a bola amarela: AQUI
Plano de aula: AQUI
O que você leva na sua bolsa? AQUI
Gênero textual bilhete: AQUI


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